– Sim, eu estava em casa, fumando na varanda, como faço todas as noites nesse horário.
– Mas essa noite não foi como todas as outras...
– Não senhor. A essa hora, a rua geralmente já está bem deserta, mas nessa noite apareceram, na entrada do Beco Dois, um homem e uma loira que eu nunca tinha visto antes.
– A senhorita conhece os moradores do Beco, senhorita Smith?
– Não conheço assim, de conhecer, saber o nome e profissão e tal, mas conheço de vista, porque eu sempre fumo na varanda, não é? Então eu vejo todos os dias o pessoal que mora por lá.
– E esses dois não moravam lá.
– Não, pelo menos a loira, eu tenho certeza que não.
– Como a senhorita tem certeza?
– Era uma mulher grã-fina, de vestido caro, penteado chique, óculos escuros, sapato bacana... esse tipo de moça não mora em becos...
– E o homem? A senhorita já tinha visto antes?
– Eu não tenho lembrança de ter visto não... mas não vi o cara muito bem. Ele estava usando sobretudo e chapéu bege. E estava se protegendo, para não ser visto. Então não consegui ver o rosto, nem a cor do cabelo, nada disso. Só sei que ele era branco, e alto. Não consegui ver muito mais não senhor
– A senhorita poderia reconhecer o homem se o visse? A senhorita poderia apontar o homem nesta sala?
– Não senhor, não posso, eu não vi o homem o suficiente para reconhecê-lo.
– Eu entendo, senhorita Smith, mas isso é muito importante. A senhorita conseguiria apontar para algum homem parecido com o que viu aquela noite, que esteja presente aqui?
– Um só? Eu vejo vários... o senhor mesmo é da altura e da cor do homem.
– Entendo. Prossiga. O que esse homem e essa mulher que a senhorita viu fizeram?
– O homem olhou para os dois lados da viela. Então eles começaram a caminhar rápido, abraçados, como se estivessem fugindo ou se escondendo de alguém. Então entraram em uma passagem de pedestres embaixo do elevado do metrô. Aí eu não pude ver nada mais.
– A senhorita não conseguia mais vê-los, mas ouviu alguma coisa acontecendo ali?
– Ouvi sim, porque minha varanda fica bem perto da passagem e estavam gritando.
– E o que eles gritavam, senhorita Smith?
– Eu ouvi uma voz masculina gritar: “Saiam do caminho. Não vou deixar vocês levarem a moça para lugar algum”. Uma voz feminina gritou: “Vocês só me levam de volta morta! Eu não vou! Socorro! Socorro!” Aí eu corri para a escada de incêndio do prédio, para subir mais e ver o que estava acontecendo do outro lado dos trilhos.
– Por que a senhorita fez isso ao invés de chamar a polícia imediatamente?
– Pura curiosidade mórbida, senhor. O telefone público fica do outro lado, na frente do meu prédio. Se eu fosse até lá eu não veria o que estava acontecendo.
– Compreendo, compreendo... e a senhorita conseguiu ver o que acontecia do outro lado, então?
– Sim, consegui! Eu demorei um pouco para chegar a um bom lugar, lá pelo sétimo andar do prédio. Aí eu vi um homem baixinho de roupa e chapéu cinza escuros puxando a mulher na direção de um carrão branco bacana, pela porta de trás.
– Era a mesma mulher que a senhorita viu entrando na passagem?
– Sim, senhor, a mesma loira classuda.
– Prossiga, senhorita.
– A mulher se debatia e tentava se soltar, mas ele era bem forte. Ela ainda estava gritando “Socorro! Socorro! Me solta, me solta, Ratão! Eu não vou voltar!”
– Então, a mulher chamou o homem que a estava agarrando de “Ratão”?
– Isso, sim senhor. Ela chamou ele de Ratão. Eu lembro porque ele era baixo e gordo e com a roupa cinza... bem... o apelido era adequado.
– E então, senhorita Smith? Prossiga.
– Então esse Ratão conseguiu colocar a loira no carro. Foi quando o cara de sobretudo bege e chapéu saiu do beco correndo na direção do carro. Aí eu não vi muito bem, mas ele começou a atacar o Ratão com alguma coisa.
– E conseguiu ver com o que o homem atacava?
– Não, mas acho que era uma faca, pelos movimentos que o cara fazia. Mas não consegui ver não, senhor, não dava para ver o que era. Mas o homem de sobretudo bege parecia saber o que tava fazendo, o senhor entende? Atacou, forçou o Ratão pra dentro do carro, entrou junto. Aí eu não consegui ver nada por um bom tempo. Fiquei esperando uns bons cinco minutos, até que o cara de sobretudo saiu puxando o Ratão, que parecia morto ou desmaiado, eu não poderia dizer. Largou o Ratão por ali, deu a volta no carro, entrou pela porta do motorista, arrancou e partiu na direção do Queens. Aí eu desci e liguei pra polícia.
– A acusação não tem mais perguntas, Meritíssimo.
***
***
Desliguei o rádio. É a porra da minha história!!! Como alguém tem a coragem de contar tudo em pormenores, para o Brasil inteiro? Na porcaria da rádio mais ouvida do país? É tudo muito óbvio, colocar um metrô na história, chamar Curitiba de Nova York e Pinhais de Queens não disfarça nada!!! A data é a mesma e até o nome do Ratão, tá tudo ali!!! Dedo-duro do caralho!!! Quem escreve essa coisa? Será que viu tudo de uma varanda mesmo? Será que é uma mulher, essa senhorita Smith? Mas ela mentiu, ela disse que eu era um cara! Um cara de sobretudo... ahahahahaha... boa, nunca vão desconfiar que tenha sido uma mulher mesmo... Mas mesmo que esteja me protegendo, essa pessoa sabe que fui eu. O pior é que agora ela está encrencada, o carcamano vai ouvir a história também e... Merda! Merda! Merda! Vou ter que descobrir se quem escreve essa coisa viu algo mais, sabe algo mais sobre mim!
***
Desliguei o rádio. Ela vai ouvir, ela vai ser forçada a voltar. Tão linda, tão forte, atacando aquele Ratão pelas costas com o pedaço de garrafa. Depois colocando os corpos dos dois caras no porta-malas, sozinha. Não deixou rastro. Só eu vi tudo. Claro que eu não chamei a polícia naquela noite, nunca chamei. Nunca contei nada pra ninguém, mas a saudade está grande demais, a paixão está grande demais, insuportável. Então chamei por ela agora. Quem sabe ela venha hoje, ou amanhã, mas ela virá. Estarei aqui, fumando na varanda, e esperando minha guerreira, minha deusa... esperando...
FIM
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