"Ajuda" - Nadia Cristina Weiss Pires

A noite estava sombria, muito escura, sem luar e sem estrelas, podendo chover a qualquer momento. As lâmpadas pareciam iluminar menos ainda devido à chuva que se aproximava, a ausência de pessoas era praticamente total, talvez isso se explicasse pelo fato de ser muito tarde, passando já da meia-noite, e a madrugada prometia ser fria.

Essa rua particularmente era muito calma, não havia bares, funcionavam somente lojas durante o dia, diferentemente das ruas acima e abaixo dela, nas quais havia muito movimento diurno, mas o noturno era de grande intensidade. Resido em um apartamento que se localiza na rua pacata, na verdade desconfio que o meu seja o único imóvel residencial. Estava na janela há algum tempo somente olhando o movimento, ou a falta dele, quando me chamou a atenção duas pessoas que vinham caminhando rapidamente, susdpeitei que se tratava de um casal, pois quando foram se aproximando do meu apartamento pude notar que estavam de mãos dadas, sendo que ele, um homem alto, forte, vestia um, sobretudo escuro e chapéu, caminhando muito rápido, praticamente arrastava a mulher, estatura mediana/alta, magra, cabelos até nos ombros usava óculos, vestia um vestido discreto juntamente com um casaco para se proteger do frio, sapatos de salto alto, o qual não facilitava em nada a sua caminhada.

Ao passar pela minha janela tão rapidamente, ela ergueu o rosto em minha direção e conseguir perceber que sua expressão era de desespero e muito medo. Continuei a observar e o que vi aguçou ainda mais minha curiosidade: logo após meu apartamento, havia um viaduto pequeno e muito antigo, e esse casal de abrigou embaixo dele, nesse viaduto sempre havia entulhos, muito lixo acumulado, ficaram quietos, não conversavam, estavam escondidos em meio às sombras que se projetam para dentro do viaduto. Fiquei a espreita para ver qual seria o desfecho dos fatos.

Ao longe ouvi som de motor de um automóvel que se aproximava em grande velocidade, virando a esquina para entrar na rua onde eu residia, pararam e desligaram o carro, ficaram observando, da janela em que estava não conseguia saber com precisão quantos estavam no interior do carro, deduzi pelas silhuetas que eram duas pessoas, provavelmente homens, fazia já alguns minutos que o carro estava parado e nada acontecia.

O casal permanecia debaixo do viaduto, da janela não conseguia enxergá-los, no entanto sabia que estavam lá, enquanto isso o carro permanecia parado um pouco para cima do viaduto, já estava pensando em me afastar da janela quando escutei um barulho vindo de onde o casal permanecia ao mesmo tempo as portas do carro se abriram de dentro do veículo saíram dois homens muito grandes, mal encarados, foram em direção ao viaduto gritando para a mulher:

- Saia daí ou iremos até aí, sabemos que está escondida. Saia! Enquanto falavam chegavam mais perto da entrada do viaduto.

- O que eu fiz? Gritou ela desesperada, pela voz percebi que chorava.

O desespero que percebi em sua voz fez com que começasse a pensar que, peguei o celular e liguei para a polícia, não podia ficar esperando se de repente poderia evitar que ferissem aquela mulher.

Enquanto estava ligando, o casal saiu do viaduto e os homens seguraram os dois, um deles pega a mulher e a arrasta para o carro enquanto o outro bate no companheiro dela, mas ao tentar desferir mais um soco o rapaz bate na cabeça do malfeitor com uma garrafa, que achou no lixo jogado no viaduto e o atinge com um golpe violento. O homem cai desmaiado.

A mulher grita desesperadamente, tentando atingir o seu agressor com socos e pontapés, não sendo muito feliz na sua tentativa de se livrar, pois o homem era muito grande, ele começa a arrancar-lhe as roupas quando sente uma mão puxando-o para trás ao virar-se para ver o que estava acontecendo o agressor foi atingido pela garrafa quebrada. O companheiro da mulher começou a bater violentamente no agressor, somente parando quando sua companheira puxou-lhe o braço e tirou a garrafa de suas mãos.

Os dois sentaram-se na calçada abraçados e choraram de alívio e nervosismo, quando levantam a cabeça ouvindo a sirene da polícia que estaciona ao lado deles. Percebo que trocam algumas palavras e os policiais desembarcam da viatura, falando ao celular alguns instantes. Passados mais alguns minutos chega duas ambulâncias que recolhem os dois bandidos e os levam, acredito que para o hospital.

Policiais e socorristas ajudam o casal a entrarem na outra ambulância e todos foram embora, a rua volta ao seu silêncio letárgico, a noite ainda continua sombria sem luar e sem estrelas, nesse instante começa a chover, uma chuva calma, como se viesse apagar tudo o que aconteceu naqueles trinta minutos de desespero, lavou o sangue, apagou a dor, voltando para rotina e monotonia noturna.

Quando penso no que aconteceu, como aconteceu, quero acreditar que tenha sido um engano, um mal-entendido, mas se assim o fosse, porque a tentativa de violentar a mulher e espancamento ao seu companheiro?

Nunca saberei as respostas, e nem eles souberam que estava o tempo inteiro olhando por eles e ajudando-os. Para ajudarmos alguém não é preciso que todos saibam o que estamos fazendo. Simples assim: ajudamos e pronto! A violência gera violência um ditado muito correto e que podemos aplicar no decorrer da nossa vida.

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