"Mikhail Bakhtin e um bom molho de carne moída" - Sharon Caleffi

Pensamento e palavra estão ligados de uma forma indissociável. Quando pensamos, usamos palavras. Quando usamos palavras, precisamos pensar nelas. Pensamento é linguagem… e a linguagem, sempre, é um diálogo. Mesmo quando estamos sozinhos, ao pensarmos, estamos dialogando. Conosco mesmo. Com ninguém em particular. Com pessoas imaginárias. Com pessoas reais, que não estão conosco no momento da conversa.

Todos esses diálogos e essa linguagem parecem um pouco com uma história, uma fábula, onde somos personagens e autores da nossa própria vida. Mikhail Bakhtin, filósofo russo, era bastante intrigado com isso. Considerava que, dentro de uma obra literária, os personagens e os eventos formam um diálogo entre o narrador e o leitor. Em algumas histórias, ditas por ele “monológicas”, as opiniões divergentes das personagens e a sequência de eventos reforça uma tese do narrador. Em outras, as questões principais não são solucionadas: são as obras polifônicas (SILVA, 2019, p.177).

E ontem, quando estava fazendo o molho de carne moída para o macarrão preferido do meu filho, pensei nisso. Todas as vozes que me ensinaram a fazer molho se misturavam ali. A irmã mais nova do meu pai, que me ensinou a picar cebola e tomates. Minha mãe, que brigava comigo se eu não deixasse a carne fritar muito bem antes de colocar a cebola e o tomate. Os programas de culinária que padronizaram a ordem dos ingredientes: refogue primeiro o alho, depois a cebola. Meu marido, que prefere usar molho pronto a massa de tomate. O que tem de meu no meu molho? Não sei, talvez nada. Talvez apenas a junção de todas essas vozes. Quando termino o prato, é como se eu dissesse: “Eis aqui o melhor molho de carne moída do mundo”. É minha obra monológica. Mas então:

- Mãe! Esse molho tem pouco tomate!

Talvez então molhos de tomate sejam obras polifônicas? Quando fizer o molho de amanhã penso nisso com mais calma.


REFERÊNCIAS

SILVA, Marisa Corrêa. Crítica sociológica. In: BONNICI, T.; ZOLIN, L.O. (Org.) Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 4. ed. ampl e rev. Maringá: Eduem, 2019. p. 171-182.

Nenhum comentário:

Postar um comentário