"Rosa Vã" - Nadia Cristina Weiss Pires

"Ontem nasceste, e morres amanhã
A teu ser tão fugaz quem lhe deu vida?
Para viver tão pouco estás luzida,
e para não ser nada, tão louçã?

Se te enganou a formosura vã, 

bem depressa a verás desiludida,
porque em tua beleza está escondida 

a ocasião de morte temporã. 

Quando te corte uma robusta mão, 

que é lei da agricultura permitida, 
grosseiro alento acabará tua sorte. 

Não saias, rosa, aguarda-te um vilão.
Adia teu nascer para esta vida,
que teu ser antecipas para a morte."

(Tradução de Fernando Mendes Vianna).


Este trabalho tem por objetivo a analise do poema Rosa Vã do poeta Luís de Góngora Y Argote, poeta espanhol (11/7/1561-23/5/1627). O referido poema é um soneto composto por quatorze versos, sendo dois quartetos e dois tercetos. Rosa Vã é um poema lírico no estilo barroco, o qual expressa a ligação delicada linha entre o seu nascimento, sua beleza sem igual, sua morte rápida com a vida do ser humano, que muitas vezes não percebe que não possui beleza fugaz e que sua juventude passageira restando somente o fim de sua vida e a chegada da morte.
O criador do poema Rosa Vã foi um dos representantes do movimento conhecido como cultaranismo ou gongorismo, o qual valoriza a forma e a imagem construída no texto, jogos de palavras( metáforas, antíteses, paradoxos, comparações, etc...) também conhecido pela obsessão da linguagem culta, uso de palavras difíceis. O Poema no próprio no exprime o conteúdo do seu texto: Rosa vã, vazia, breve passageira, insignificante, inútil.
A literatura não é um jogo, um passatempo, um produto anacrônico de uma sociedade dessorada, mas uma atividade artística que, sob multiformes modulações, tem exprimido e continua a exprimir, de modo inconfundível, a alegria e a angústia, as certezas e os enigmas do homem.” (AGUIAR e SILVA apud LAJOLO, p.7).
No texto de Aguiar e Silva o autor escreve que “a literatura não é um jogo mas uma atividade artística” e esta claramente expresso no poema Rosa Vã, pela beleza e delicadeza do poema e em ambos os textos temos o antagonismo, a fragilidade da vida sua beleza, mas ao mesmo a sua insignificância perante morte.
Em literatura, o cultismo (“mais palavras que pensamentos”) e o conceitismo (“mais pensamentos que palavras”), a poética (tão admirada, no Portugal seiscentista, por D. Francisco Manuel de Melo) de Góngora (1561-1627) e a de Quevedo (1580-1645), são duas fazes dessa mesma tendência lúdica, ornamental e efeitista – corifeu do barroquismo italiano. Por outro lado, em seu próprio aspecto lúdico e
ornamental, cultismo e conceitismo, tropos e figuras, refletem o estigma da condição da fantasia sob o domínio da razão moderna.” (MERQUIOR, p.49).
Rosa Vã mostra claramente o lírico barroco “Ontem nasceste, e morres amanhã. [...]”Tradução de Fernando Mendes Vianna, seus extremos entre a vida e a morte, a brevidade da vida e quanto a vida do homem é Sendo o barroco sinônimo de contraste, nesse período da humanidade pode-se afirmar que a sociedade vivia em grandes contrastes sociais poucos tinham riquezas, mas os que tinham era muito exagerada, pois tudo podiam, não trabalhavam, não pagavam impostos, havia desperdícios de alimentos, enquanto que a pobreza era extremamente o oposto, trabalhavam muito, pagavam muitos impostos, recebiam por seu trabalho muito pouco, alimentando-se e vestindo-se muito miseravelmente, assim o barroco surge como forma de mostrar através dos versos tamanha a diferenças existente na época. No barroco tem-se o pessimismo, o desengano, a crítica e sátira do poder e dinheiro e principalmente enfatiza a brevidade da vida que está a um passo da morte. O poema menciona de modo singelo toda a problemática existente, dentro do barroco, sempre tragico e satiriza todo o produto social no qual o eu lírico está envolvido.
O que é a vida diante da possibilidade da morte, assim quando o ser humano cai em si dessa possibilidade percebendo que está fora do seu alcance mudar o destino sofre com o desengano e decepciona-se ao deparar-se com a constante de que nada possuiu senão a possibilidade da morte. Como citado acima Rosa Vã é um soneto composto por quatorze versos sendo dois quartetos e dois tercetos.
Pertencerá à Lírica todo poema de extensão menor, na medida em que nele não se cristalizarem personagens nítidos e em que, ao contrário, ema voz central – quase sempre um “Eu” – nele exprimir seu próprio estado de alma (ROSENFELD apud CUNHA, p. 97).
Portanto o poema enquadra-se perfeitamente no lirismo, pois é um soneto, não possui personagens definidos, mas remete o pensamento de um “EU” como se o personagem principal fosse o leitor, evidencia varias vezes a possibilidade de vida e morte.[...] Ontem nasceste, e morres amanhã”[...] e em outro verso[...] !Para viver tão pouco estás luzida” [...],(Tradução de Fernando Mendes Vianna v.1 e v.3) essas repetições faz com que o leitor retome o pensamento para o sentido de vida e morte.
É uma noção difícil de determinar, mas ela diz respeito a uma experiência especial das paixões ligada à arte poética. Aristóteles, além disso, colocava o prazer de aprender na origem da arte poética: instruir ou agradar (prodesse aunt delectare), ou ainda instruir agradando, serão as duas finalidades, ou a dupla finalidade, que também Horácio reconhecerá na poesia, qualificada de dulce et utile. (COMPAGNON, p. 35)
Como Aristóteles coloca pode-se ter prazer em aprender na interpretação de poesias, pois a partir disso conseguimos ver a beleza dos poemas, no caso do poema Rosa Vã ele nos ensina como a vida é passageira e fugaz, que devemos tirar proveito de tudo o que for bom, aproveitar todos os momentos para que não sejamos pegos de surpresa e venha a morte ceifar todos os sonhos, todas as “rosas” que deixamos de colher por motivos fúteis e banais. Assim se ao interpretarmos os poemas ele terá atingido suas finalidades que são ensinar quem esta lendo e agradar o leitor. Em um primeiro momento o poema faz com que o pensamento seja voltado para morte e como tal sem discordância deste fato a morte é inevitável. Rosa Vã tão bela, mas tão vazia, tão altiva, mas tão singela, hoje tão potente, mostrando sua formosura, mas amanhã apática e breve, esperando somente que chegue seu fim. Nada temos, nada somos, senão o aqui e o agora.

Referências 

AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel de. Teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1976.

https://www.algosobre.com.br/biografias/luis-de-gongora.html www.biografiasyvidas.com.biografias/g/gongora.html

BOTTON, Alain; ARMSTRONG, John. Arte como terapia. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2014.

COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.

CUNHA, Helena Parente. Os gêneros literários. In: PORTELLA, Eduardo (org.).Teoria literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1999.

LAJOLO, Marisa. O que é literatura. São Paulo: Brasiliense, 1985.

MERQUIOR, Guilherme. Os estilos históricos na Literatura Ocidental. In: PORTELLA, Eduardo (org.).Teoria literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,1999.

www.biografiasyvidas.com.biografias/g/gongora.html

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